
Toda vez que sai uma reforma nova, a primeira pergunta do médico empresário é: vou pagar mais ou menos imposto? Faz sentido — afinal, no fim do mês, o que conta é quanto sobra. Mas na Reforma Tributária aplicada à saúde, essa pergunta sozinha esconde o que realmente importa.
A alíquota, sim, baixou. E baixou bastante: o setor da saúde foi reconhecido pela lei como essencial e ganhou uma redução de 60% sobre as alíquotas padrão de IBS e CBS. Considerando que a alíquota padrão combinada estimada gira em torno de 25%, a efetiva pra serviços de saúde fica em algo perto de 10%. Em tese, é uma notícia boa.
O problema é que a conta da rentabilidade real de uma clínica não cabe nessa única linha. E é aí que muita gente vai descobrir, com atraso, que a estrutura tributária que sempre funcionou parou de funcionar.
O que muda na prática
Vamos pelo essencial, sem juridiquês.
A reforma substitui ISS, ICMS, PIS e Cofins por dois tributos novos: o IBS (que une estados e municípios) e a CBS (federal). Juntos formam o chamado IVA Dual. Pra serviços de saúde — consultas, internações, procedimentos, exames, atendimentos hospitalares e ambulatoriais —, a Lei Complementar 214/2025 garantiu a redução de 60% na alíquota.
A mesma lei estende esse benefício a uma lista de dispositivos médicos e medicamentos considerados essenciais (com revisões periódicas, definidas em anexo da própria lei). Alguns itens chegam a ter alíquota zero. Outros ficam fora do benefício e seguem na alíquota cheia.
Tudo isso é a parte “fácil” da história. A parte difícil vem agora.
Por que o Lucro Presumido pode ter perdido o brilho
A vasta maioria das clínicas médicas, consultórios e pequenas estruturas hospitalares opera hoje no Lucro Presumido. Faz todo sentido: é um regime simples, previsível, com tributação calculada sobre uma base presumida da receita. Você sabe quanto vai pagar antes mesmo de pagar.
Esse modelo funcionou porque o sistema atual (PIS e Cofins) é cumulativo: você paga o imposto sobre a receita, e a sua despesa não entra na conta. Não importa se você gastou muito ou pouco com insumos, aluguel, equipamentos — o imposto era o que era.
A Reforma Tributária inverte essa lógica. Os novos tributos (IBS/CBS) são não cumulativos: você paga sobre a receita, mas pode abater (creditar) o IBS/CBS que pagou nas suas compras de insumos, equipamentos, serviços contratados e até no aluguel da sua estrutura. Em outras palavras, a eficiência na tomada de créditos passa a definir uma parte importante da sua margem.
E aqui está a virada: clínicas com estrutura mais complexa — com equipamentos caros, muitos insumos médicos, equipe contratada via PJ, locação de espaços, parcerias com terceiros — passam a ter um volume razoável de créditos pra aproveitar. Isso favorece o regime regular, onde esses créditos são apropriáveis de forma cheia.
Já clínicas com estrutura enxuta — médico autônomo, poucos insumos, pouca despesa creditável — não têm muito o que creditar, e o Lucro Presumido pode continuar fazendo sentido. A questão é que isso vira simulação caso a caso, não regra geral.
A frase que circula entre os tributaristas resume bem: na reforma, o regime tributário não é mais uma escolha pelo conforto. É uma decisão sobre eficiência de crédito.
O que muda na rotina contábil da clínica (de verdade)
Além da decisão estratégica de regime, tem mudanças operacionais que entram no dia a dia:
A emissão da nota fiscal precisa destacar a alíquota reduzida corretamente. A lei prevê que essa redução seja aplicada diretamente no documento fiscal eletrônico, com controle pela apuração assistida do Fisco. Se sua clínica errar a classificação (por exemplo, tratar um procedimento estético como serviço de saúde quando ele não é, ou vice-versa), o problema aparece na escrituração — e na fiscalização lá na frente.
O plano de contas precisa segregar receitas com alíquota reduzida das receitas tributadas pela alíquota padrão. Clínicas multidisciplinares ou que combinam serviços de saúde com estética, bem-estar ou cosméticos vão sentir isso primeiro — porque nem tudo cabe no mesmo guarda-chuva.
E tem o split payment, que afeta toda empresa mas pesa especialmente na saúde, onde o ciclo entre atendimento, faturamento de plano e recebimento já é longo. Quando ele entrar em vigor (a partir de 2027, sendo ampliado nos anos seguintes), o imposto será descontado na hora da liquidação do pagamento — você passa a receber líquido. Pra uma clínica acostumada a recolher tributo só semanas depois, isso muda o capital de giro.
O que clínicas e médicos PJ deveriam estar fazendo agora
Quatro movimentos concretos:
Simular o impacto da nova carga. Não dá pra decidir se vale a pena trocar de regime, abrir um Simples Híbrido ou migrar pro Lucro Real sem rodar a conta com os números reais da sua clínica. O cenário de cada consultório é único — depende de faturamento, mix de procedimentos, despesas creditáveis e perfil do paciente (particular ou plano).
Revisar o CNAE e a forma de faturar. O enquadramento de atividade vai definir se você se qualifica ou não pra alíquota reduzida. Procedimentos híbridos (estéticos com componente terapêutico, por exemplo) entram numa zona cinzenta que precisa de leitura técnica.
Mapear suas despesas creditáveis. Olhar pra dentro da operação e identificar o que vai gerar crédito de IBS/CBS no novo modelo. Materiais médicos, equipamentos, locação, serviços contratados — tudo isso entra na conta de competitividade real.
Planejar o caixa pro split payment. O dinheiro do imposto vai sair antes. Se o seu ciclo de recebimento de plano de saúde já é longo, esse aperto pode chegar mais cedo do que parece.
O recado pra quem cuida da saúde dos outros
Tem uma ironia bonita no fato de que o setor da saúde — que cuida do bem-estar — costuma cuidar pouco da própria saúde financeira. O médico empresário aprende a operar com precisão de microscópio dentro do consultório e, fora dele, frequentemente deixa decisões importantes pra “depois”.
A Reforma Tributária não vai esperar. A boa notícia é que ela foi desenhada com cronograma longo justamente pra dar tempo de ajustar. Quem usar 2026 pra simular, revisar e planejar vai chegar em 2027 — e nos anos seguintes — com decisão tomada e estrutura preparada.
Na Raupp Contabilidade, a gente tem experiência específica em contabilidade para a área da saúde — médicos, clínicas, consultórios e hospitais. Estamos rodando simulações personalizadas pra cada cliente: cenário atual, cenário com a reforma, decisão de regime, impacto no caixa. Se você quer ver o que faz sentido pro seu consultório ou clínica antes do barulho chegar no caixa, fale com a gente. Diagnóstico precoce funciona em medicina — e em finanças também.
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